Coluna de Marcos Lazaretti

 

Aqui, teremos a cada 15 dias uma nova matéria à partir de fevereiro.

 

 


Coluna de Hélio Guedes

 

 

 


Coluna de No Tranca.

Este vai ser um de nosso colunistas, que inicia com um conto do fim de semana.

 

 

Moto suja, alma lavada...

Existem poucas coisas melhores do que chegar inteiro da trilha num final de tarde maravilhoso e

a moto pintada de marrom. É a confirmação de diversão garantida.

Moto suja mas a alma lavada. Me sinto novo. O corpo cansado. Braços no fim. Calos nas mãos e um pequena bolha que estourou.

Mas a mente está realizada. A tarde foi espetacular.

Ainda de manhã liguei para meu grande parceiro de trilha e questionamos a possibilidade de dar a primeira banda do ano.

Estava desde novembro sem andar na prova final do Metropolitano.

Trilha mesmo nem lembro a última. Então a vontade era grande mas a chuva também... Não que eu seja de açúcar, mas ultimamente estou dando preferência para aproveitar o tempo com minha pitoca de 1 ano e 10 meses e quando o tempo está muito ruim fico com ela.

Mas a vontade de trilhar era grande e decidimos ir. Enquanto comia o famoso xis pre-trilha, a chuva parou e a tarde começava a prometer.

Moto no reboque, morro acima. Parecia que ia ser só nós dois mas um colega antigo do tempo de escola apareceu, e nossa dupla logo dobrou. Agora o sol já brilhava, e a trilha estava só começando. Temperatura agradável, barro fabricado pela noite e manhã de chuva e as trilhas lá nos esperando.

Já nos primeiros 100 metros o primeiro susto. Quase o primeiro "buléo".

Como era de se esperar, saí alucinado querendo tirar o atraso, e logo no primeiro trecho de "pista escorregadia" quase fui ao chão. Baixa a bola, pensei pra mim mesmo.

Cagaço tomado, cabeça mais no lugar, continuei maravilhado com a sensação de guiar uma 250 2T muito forte. Parecia não lembrar ser tão bom trilhar. Salta morrinho, pula pedra, abre valeta com um só acelerão... que vida !!

Nosso roteiro pré destinado consistia em uma volta boa, perto de 120km com pouca estrada e muita, mas muita trilha.

Já no início ficou visível que o amigo de meu colega não estava conseguindo acompanhar o ritmo. Ele havia se machucado durante a semana ao cair de uma escada e sentia dores nas costas. Na segunda trilha teve que abandonar e então nós 3 seguimos viagem. Não dava pra perder um dia daqueles. As trilhas estavam molhadas mas dava para acelerar.

Desce trilhão de pedra, atravessa rio, sobre trilha comprida, opa, pedreira a vista, acelera !!

Meu amigo me mostrava umas trilhas inéditas, que ele a pouco havia descoberto.

Show !!! Uma delas mais dava para batizar de trilha das esmeraldas pois todas as pedras eram verdes!! Não demorou muito para testemunhar uma cena espetácular. Já não podia chamar aquilo de "compra de terreno".

Esse tombo já passava a ser um "loteamento".

Nosso puxador acelerou sua também 250 2T sobre algumas das esmeraldas e tomou uma vaca extraordinária 5 metros na minha frente. Era uma subida fechada no mato e vinhamos numa segundinha com o cano cheio.

Nessas horas agente vê a necessidade dos equipamentos de segurança. A moto fechou um 180° e a cabeça bateu forte nas pedras. Nada além de uma dorzinha na perna. Check-up feito, sem baixas, seguimos viagem.

As trilhas estavam demais. Descemos uma que batizei de "Trilha das pedras invisíveis". Sabe aquela trilha que você mal encherga o chão, só aquele capinzinho caindo no trilho fino? Bom, na maioria das vezes não é só o capim que cai no trilho não. Consegui achar uma pedra lá que estava bem, mas muito bem escondida. Eu diria invisível.

Do nada aquele enorme solavanco, inesperado. Acredito ter sido o meu melhor reflexo para evitar vaca que já tive até hoje. Realmente não sei como não fui ao chão. Também não sei o que fiz para evitar, mas UFA funcionou.

Seria outro tombo de cinema. Logo em seguida achei outra pedra escondida e quase chão denovo.

Devo ter contabilizado pelo menos umas 10 pedras invisíveis nesta trilha. Acredito que muitas outras a serem descobertas.

Paramos no posto para abastecer. Já havia gasto 5 litros. Tanque cheio, paçoquinha ingerida e um refri bem gelado, seguimos nosso caminho para mais 70 km que nos aguardavam. A adrenalina era tanta e a seleção de trilhas tão boa que não sentia ainda o sinal nenhum do cançado e o despreparo resultado de um mês e meio na reserva.

30 km adiante mais um pit-stop, desta vez bem rápido, somente para repor líquidos pois o sol havia esquentado a tarde de sábado. Estavamos agora no processo de volta perto de 7 da noite. Faltavam pouco mais de uma hora de sol, então paradas foram descartadas, afinal mais 40km nos separavam do carro e não seriam de estrada. Comecei a sentir os braços e as mãos querendo se entregar. Não demorou para algumas cãimbras começarem a querer atrapalhar os pegas de final de dia. Não deixamos por menos e subimos mais uma pedreira, aquelas das boas.

Faltava a saideira, agora mais um pouco de estrada e logo seria a última. Deu tempo ainda de secar o meu tanque e ficar sem gasolina. Saquei logo meu 1L reserva da mochila e dei risada. O sorriso não cabia dentro do capacete.

Que tarde ! Que início de ano! Que maravilha poder trilhar ! A última trilha logo acabou e estavamos devolta ao carro.

As motos estavam irreconhecíveis, muito barro mesmo. Acelerei bastante e encerrei o dia sem um tombo sequer, fato raro, e com sentimento de dever cumprido. Agradeço ao velhinho lá de cima por momentos como esse. Por ter feito a escolha acertada em trilhar naquela tarde. Como diria um amigo meu: moto suja mas a alma lavada.

 

NO TRANCA, Janeiro 2009

 

 


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